Emília não há começo. Apenas penso, apenas cesso. Hei de compor trovas para ela, hei de fazê-las belas, e então jogá-las fora. A quem não começa não se dá fim.
Amo-te agora, Emília. Tua voz suave, apenas minha, aderiu a meu ouvido e já nem escuto mais nada. És a membrana da existência, formulaste com tuas delicadas pinças, novos pulmões, débeis, que me dão sobrevida.
Há muitos meses vi-te, e pensei que não deveria haver nada de melhor no mundo que ignorar-te. Mas era inútil. Teu olhar baixo, teu sorriso tímido, tuas sardas e, quem poderá explicar isso?, teu magnífico, imponente porte de menina a quem a vida causa muito medo, a quem o esplendor já deu muitas rugas e tristezas. Tua fraqueza, Emília, é tua segurança maior, e como a temo! Disseste-me, consultaste-me, ai de mim, que a essas horas nem chego a ser nada, o espelho da mediocridade, a fuga completa da obviedade, olhaste com súplicas para mim, com a cabeça imóvel, apenas os olhos pequenos fugindo das órbitas de vidro. Que era eu naquele momento a mais do que uma seqüência de palavras mortas e um retumbar de dúvidas, o desastre?
Emília dos belos braços, das mãos fortes, virtuosas, Emília juvenil, fresca, de pés limpos para a vida, Emília, meu amor, a se convencer de sua beleza absurda, de sua provável afabilidade, de sua capacidade de transformar qualquer bom coração em seu.
Amo-te, Emília. Deixa-me segurar tua mão, cingir-te a cintura e mostrar-te com quantas notas se faz uma música.
É longa e dolorosa a caminhada, preciso de tua ajuda.
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