20040719

Meu amor é Martha. Amor puro e bruto, mesmo dolorido e infindo.
Sinto pena desta vida e das horas que perdemos. Sinto culpa por tudo ter que ser tão nublado apenas pela nesga de humanidade que há em mim.
Não me ames nunca, Martha. Sabes do que falo, não há a dignidade mínima necessária em mim que te caiba, que te sirva. Vivo às demências, a essas palavras vazias e ao profundo pesar que me causa a consciência do estrago que alardo. Sou a covardia dos homens, a fábula que contarás a teus filhos para que se edifiquem.
Enquanto dormes, meu amor, corrói-me a alma nos calos da madrugada, buscando algum eco de tua voz na memória.
Ai de mim. Mantem-me na escuridão, sim, nunca me ames. Que eu me perca só, desgraçadamente, mas com honra. Que o meu sonho eterno seja finalmente a teu lado, repouso das formas, fim da carreira, hálito sagrado, mão canhota no regaço, finalmente solícita por algo que sempre seja. Ai de mim por amar-te tanto, Martha.