20040630

Pois sim. No começo, Martha, eras como agora. E ainda agora cobiço-te toda inteira, imaginando que para uma vida completa bastaria um dia. Apenas um dia contigo, como todo homem bem sabe, seria suficiente.
Dar-te todo meu amor, obviamente, não te é suficiente. Seriam necessários arranjos com o próprio diabo, que te carrega. Ai de mim, perder-me novamente, como, enfim, nunca me perdi. Ai de mim, querer essa perdição como mais nada em todo o universo. Ao menos olhar tua boca por dentro, fechar teus olhos com meus dedos, medir tua mão com os pés do sistema métrico britânico, roçar meu cotovelo no teu seio, como o fiz hoje, com toda a intencionalidade vilã que se apossa de mim quando suas formas me tiram do devaneio pífio que é a vida indecente das calçadas das vilas.
Martha, tua putaria ao me procurar novamente, fazendo-me de rogado, ah, como ela merece ser apalpada na maciez da tua bochecha encostando na minha naquela estúpida fração de segundo consentida entre nós, Deus e o mundo. Tua putaria em se oferecer assim, cândida Martha, acaba com qualquer raciocínio, oh, floco de neve mil vezes maldito, tempo e espaço infindos, serpentes dos meus sonhos como tua voz, teu hálito, o gengibre acre que me ofereces meio que por obrigação de me ver sofrer.
Tem dó, meu amor. Não vês que assim pereço? Que foi preciso mais do que eu em busca de querer ser eu para evitar de raptá-la, furtá-la a tudo e todos. No dossel, na antecâmara dos meus desejos apareces como que pálida e insaciável, implorando para que eu morra por teus favores. E eu morro, como todo outro tolo morreu de amores, piegas, sem consolo, olhando pela janela para evitar as paredes.