20040630

Era necessário alguém com algum talento para descrever as mãos da minha amada. Era necessário o entalhe perfeito para apenas entrever o que durante duas dezenas de anos o mundo conseguiu conceber nos limites do Belo. Era necessário uma tecnologia que abarcasse o cosmos em todos os seus pontos de vista para que apenas, congelando-se, pudesse ser sabida a posição exata de seus dedos, chamando de lira essa qualquer coisa que vai dentro de mim, pela qual morro cada vez mais.
Ainda, é necessário uma arte que encante Martha, meu único só amor, para que eu possa pegar em sua mão e talvez conhecer os milhares de planetas que ainda falta. No fim, deixar que ela repouse sobre a minha, oh supremo êxtase, fúria das incapacidades humanas, divinos palavrões por ser inventados para ocasiões que o requerem.
Não há compostura no amor a Martha. Há apenas essa postura indócil dela, essa fuga eterna por espirais ridiculamente embasadas em teorias suprafísicas. Odeio-as todas. Odeio tudo que não seja sua cor, seu cabelo, sua nudez tirante a sardas, sua graça em ficar sem graça, sua beleza nas axilas furtadas, seus pelos pubianos edipianamente eriçados, seu pé sagrado, decorrência de suas pernas arqueadas, os anteparos negros do primeiro plano de sua existência.
Era necessário algum talento para dizer com certa fidelidade o quanto amo Martha e como possuo uma capacidade nauseabunda de quase me esquecer disso. Eu, o mais desprezível dos cactos que já feriram sua pele fui digno de ser investigado por ela, fui digno de nota sua de como não queria que eu me subtraísse a sua presença. Martha talvez ame meu amor, e eu sim, estaria farto com suas raspas de casca de laranja apodrecida, como se um leve sabor de sua saliva não curasse as dores de uma existência como a minha.
Devo dizer que sua mão é linda. Devo dizer mesmo que um dia ela, magra, grande, tirará um belo som do instrumento e que isso é possível de ser alcançado, com algum esforço. Mas eis o som que Martha extrai com completa habilidade deste instrumento rouco e esganiçado. Meu amor por ela é de Stradivari, quieto no vácuo e absolutamente belo ao menor roçar de qualquer alento.