E sendo assim, meu amor, continua a me chamar para o teu lado. Continua a dizer que me quer só por querer. Continua a sentir culpa por ser amada. Ah danosa lida, como é aguda a ferida da sabedoria, como é tolo o homem das maçãs, como nada sabe o que vende a alma ao diabo. Mais feliz és tu, em apreciar essa tolerância macabra do tempo que se agita, de pensar que tuas virilhas não conhecerão alguém que entenda malícias, em gozar das presenças como se fossem frutas verdes em árvore desconhecida. És feliz, Martha, porque um dia te casarás com quem lhe agradar o mínimo e compartilhar de teus hábitos impensados, porque um dia comunicarás isso a mim, que talvez já não exista mais quando teus filhos puderem ter memória, porque achas que a simplicidade da vida pode ser esquecida na rotina de um bom dia ao lado de alguém que invariavelmente pisa em teus pés.
Olho para meu tapete e imagino-te aqui, sentada, viajando pelos filmes da minha infância, reunidos sob ele. Imagino-te voando comigo pela noite de São Paulo, segurando em minha mão, como em no máximo duas horas todos se encontram nessas bobagens que amamos. Imagino depois a tua infância recuperada dessa mesmice que é tua entourage, novamente a pachorra de arrancar-te do pântano.
Perdoa-me, meu amor. Nestes anos que passarão amar-te-ei ainda mais, como já não é mais possível, serei o pergaminho dos teus dias. Por trás deste meu sorrisinho afável, insosso e meus desviar de olhos, nada de ruim te passará. Para que um dia me tomes como teu, leva estas palavras. És única. Nunca nada de igual senti por outrem nem sentirei. Acredita nessas linhas de endosso.
Martha, meu único amor, misericórdia, eu te amo.
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